Em algum lugar esquecido
Sobre uma terra generosa, abaixo de uma lua tão grande quanto o sonho camponês, surge um acampamento de trabalhadores rurais sem terra, uma aldeia gaulesa, um quilombo, a reserva moral da classe trabalhadora.
Esquecidos pelo estado das elites, combatido pelos coronéis da região, eles e elas resistem. De fato é uma terra distante, foi preciso o sacrifício de cinco trabalhadores em 20 de novembro de 2004 para que Felisburgo torna-se uma memória viva e triste, antes a morte caminhava silenciosa por aquelas serras.
Quis escrever um relatório mais próximo da realidade sobre a situação do Acampamento Terra Prometida, situado na Fazenda Nova Alegria (Município de Felisburgo), neste sentido não poderia ser um relatório técnico, analítico, desprovido de emoções e intuições, por que as emoções e intuições são reais, caso contrário o Acampamento Terra Prometida não existiria mais. Foi graças à mística que se construiu entre aqueles homens e mulheres, entre as crianças e anciões que foi possível permanecer em um lugar onde o medo caminha livre e a possibilidade de uma nova tragédia é algo muito provável.
A situação de impunidade alimenta o medo, em Felisburgo é possível ver alguns dos assassinos reunidos na esquina do quarteirão onde mora uma das viúvas dos que caíram no massacre. Eles insultam e caminham com liberdade com a certeza que naquela terra não existe lei para os que cumprem os desejos da elite. A Polícia Militar possui um efetivo invencível de quatro soldados e uma viatura, medrosos e aliados a política dominante não possui capacidade nem vontade de reprimir as ameaças desferidas contra os acampados. Em reunião com o Capitão Freire (Responsável pelo policiamento na região), onde foi colocada a informação que um trabalhador viu dentro da caminhonete de um dos irmãos de Adriano Chafik um arsenal, o capitão se resumiu a dizer que os trabalhadores deveriam reunir mais provas, de preferência fotografias e filmagens para instruir as denúncias. Não sabemos com sinceridade em que planeta habita o oficial da PM, seria pouco comum os trabalhadores rurais acampados em uma região sem energia elétrica, sem transporte coletivo, sem telefonia, sem o mínimo, agora com filmadoras e máquinas fotográficas arriscando suas vidas para reunir provas que o Estado tem o dever de reunir.
Nem o surrealismo foi capaz de tamanho devaneio.
Um dos coordenadores do acampamento, o bravo companheiro Jorge, hoje encontra-se jurado de morte. Caminha todos os dias 12 km para encontrar com sua família que está acampada em outras fazenda. Pela manhã e a noite este homem desafia a sorte e caminha em passos largos e firmes rumo ao seu compromisso. Tivemos a honra de conviver com este militante que durante a longa caminhada até sua casa nos contou sua vida e seus medos, explicando as belezas e perigos de cada curva da estrada.
Esquecido pela justiça, mais um herói anônimo de nosso povo.
O Acampamento Terra Prometida impressiona pela organização: limpo, mobilizado e rebelde como deve ser um acampamento do MST. Uma escola foi instalada dentro da ocupação graças à luta destas pessoas que ocuparam a prefeitura por quatro dias e desafiaram o poder dos coronéis, o prefeito não teve outra opção e acatou á força as exigências dos trabalhadores e trabalhadoras. Produção coletiva nas lavouras, núcleos de famílias organizados, sistema agroecológico de manejo, mística e luta. Estas são pilares da vida no acampamento. Os esforços coletivos desafiam a ameaças de morte, a insegurança e o descaso dos poderes públicos.
Visitamos as viúvas dos mártires, quatro delas estão morando em casebres miseráveis na cidade, convivendo com o preconceito das pessoas que ainda não entendem a grandeza da luta pela Reforma Agrária. São pessoas tristes que vivem sem esperança de conseguir justiça para seus mortos. Outra viúva ainda continua no acampamento, mulher forte e rara, mistura tristeza, rebeldia e luta. Seu sonho e que seus filhos não tenham o mesmo destino de seu marido.
Recolhemos os documentos e informações relativas à instrução de um processo de indenização para aqueles que perderam familiares, foram feridos ou tiveram suas barrancas queimadas.
Deixamos com pesar aquele acampamento onde homens e mulheres sobrevivem em uma terra rude, onde as cercas cercam os corpos e as almas, ondas nas sombras da estrada residem o perigo, o fogo inimigo. Contudo no meio de tanto medo, as crianças continuam nascendo em crescendo, as flores continuam crescendo e cada dia despertam com uma nova esperança.
Pedro Otoni advogado do Sem Terra
17 luglio 2006 - Belo Horizonte - Estado de Minas Gerais